Personagem

Personagem: a professora aposentada que virou referência na praça

Atualizado em

Composição editorial sobre personagem de bairro

Célia Mendonça, 71 anos, aposentada há seis, chega à praça às oito da manhã com cadeira dobrável, bolsa de lona e três canetas de cores diferentes. Senta debaixo do flamboyant, abre o caderno e espera. Não vende nada. Não cobra nada. Oferece o que sempre ofereceu em quarenta anos de magistério: atenção.

Da sala à calçada

A transição da aposentadoria foi difícil no começo. «Acordava cedo sem lugar para ir», conta. A filha sugeriu cursinho; Célia recusou. Começou a passear, parou na praça, corrigiu um bilhete de criança que pedia ajuda com redação. No dia seguinte, voltou com lápis reserva. Em um mês, havia fila.

Hoje ela revisa textos de vestibular, ajuda com carta de emprego, ensina vírgula para quem voltou a estudar tarde. Tudo gratuito, tudo ao ar livre — exceto nos dias de chuva forte, quando migra para o átrio da padaria do Seu Nilton, que reserva duas cadeiras sem reclamar.

«Aposentadoria não é fim de serviço. É mudança de sala.» — Dona Célia

A rotina na praça

Às terças, o grupo de idosos que caminha no entorno para na cadeira dela para «meia hora de português» — jogo de palavras cruzadas coletivas. Às quintas, mães deixam filhos no parquinho e aproveitam para ler em voz alta trechos de livro que Célia indica. Ela mantém um caderno de receitas trocadas com vizinhas: feijoada da Dona Neuza, bolo de milho da prima da padaria.

O caderno virou arquivo informal do bairro. Um estudante de pedagogia fotografou algumas páginas para trabalho de faculdade; Célia autorizou, desde que não colocasse sobrenome de ninguém. Privacidade, diz, é também lição de cidadania.

O que fica

Personagens como Dona Célia não aparecem em indicadores de política pública. Não são programa municipal nem ONG. São infraestrutura humana — o tipo de presença que faz praça ser praça e não apenas espaço entre prédios.

Quando perguntamos o que mudaria se sumisse amanhã, a resposta veio de um pai que aguardava vez na revisão de texto do filho: «A gente perderia o endereço onde pedir ajuda sem vergonha.» Célia ouviu, riu, e voltou a marcar um «porquê» com caneta vermelha.

Atualizado em 12 de junho com correção no nome do bairro (Méier).

Helena Souza escreve perfis e crônicas de bairro para o Heriva Leitura. É carioca, ex-professora de literatura e mora a quatro quadras da praça onde Dona Célia atende.